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Mundo do Trabalho

COMUNA DE PARIS: REPÚBLICA UNIVERSAL DO TRABALHO




Organizada em um governo autônomo, a Comuna ainda é referência para a emancipação do trabalho

Comuna de Paris: a primeira república universal do trabalho

Por Sebastião Soares*

“Em 1871, os homens e mulheres de Paris tomaram a cidade e criaram um governo autônomo comprometido com a igualdade para todos. A Comuna de Paris mostra que uma nova sociedade, criada de baixo para cima, é possível, mas a ordem dominante nunca cede voluntariamente o poder.

O velho mundo deve chegar ao fim! Nós queremos ser livres. A França não está sozinha. As nações civilizadas do mundo estão de olho em Paris. Eles estão esperando nossa vitória e a sua vez de se libertarem, também.  

                  Um Grupo de Mulheres Parisienes. Abril, 1871”.

Comuna de Paris: a primeira república universal do trabalho

                                                                                                                                Estamos aqui pela humanidade”.

 

A ousadia de tentar tomar “os céus de assalto

 A Comuna de Paris, ousadia heroica da classe operária francesa, criou a primeira república do trabalho, iniciada com a revolução que tomou as ruas de Paris no dia 18 de março de 1871. Os revolucionários ergueram barricadas, assumiram o poder e instituíram um governo revolucionário popular e democrático, que durou até 28 de maio do mesmo ano. Esta, que foi a experiência mais significativa de luta revolucionária do proletariado, até revolução de outubro de 1917 na Rússia, deixou para o mundo lições importantes, ainda hoje atuais, depois de quase 150 anos da sua efetivação. Um aspecto especial, apontado por historiadores da Comuna, entre estes Lissagaray, que esteve nas fileiras de luta, está no fato de terem sido as operárias francesas as primeiras a se lançarem na frente de batalha, antecipando a ação dos homens, hasteando a bandeira da insubmissão proletária.

 “As mulheres partiram primeiro, como nos dias de Revolução.  As de 18 de março, curtidas pelo sítio – haviam recebido dupla ração de miséria – não esperaram seus homens. Rodearam as metralhadoras interpelando os seus chefes: “É indigno! O que estás fazendo aí?  Os soldados se calam. De vez em quando um suboficial exclama: “Vamos, minhas senhoras, afastai-vos!” A voz não é rude; elas permanecem. [...] Intimidados pelos apelos das mulheres, os soldados empurram seus cavalos em marcha à ré, provocando risos”. (LISSAGARAY, 1991, p. 84)

 Era o começo dos confrontos nas barricadas de Paris. O operariado em armas tomou o poder em uma cidade sitiada pelos exércitos da Prússia que, àquela altura, desenvolvia a guerra de anexação contra a França, humilhando o imperador francês, Luiz Napoleão, retratado por Marx na sua obra clássica, O 18 Brumário de Luís Bonaparte.

A Comuna de Paris teve uma vida curta, efêmera, sem deixar de ser uma proeza histórica, uma ousadia colossal, frente às condições concretas totalmente desfavoráveis, o que levou Marx a afirmar que “o proletariado francês queria tomar os céus de assalto”. No alvorecer da explosão das barricadas e da situação de insurgência que se prenunciavam, Marx, em avaliações críticas do movimento, advertia sobre às possibilidades de êxito do operariado pegar em armas na França, considerando a realidade concreta, a falta de organização e de formulação teórica do operariado francês. Porém, uma vez instalada a Comuna, ele se alistou na luta e esteve, do começo ao fim do conflito, em atividade frenética de divulgação e difusão da revolução, buscando apoios junto a outros governos europeus e apontando alternativas aos comunards, desde a Inglaterra, onde se encontrava exilado.

Ao final deixou escrita uma das suas principais obras políticas, A Guerra Civil na Franca - 1871, com aportes fundamentais para a história do movimento, para a compreensão do próprio pensamento político de Marx, com referências determinantes sobre a natureza do Estado. A compreensão do significado da Comuna de Paris, no pressuposto desenvolvido por Marx, contribuiu, também, para superar de vez a ilusão idealista hegeliana, de ver no Estado burguês a universalidade da emancipação humana, concepção ainda em voga nas vulgatas politicistas da contemporaneidade, colocando o Estado como um ente sobrenatural que paira sobre a sociedade, acima e distinto das classes sociais.

A Comuna de Paris foi, também, a expressão objetiva do que poderia ser a ditadura do proletariado, conforme as observações argutas de Engels e  Marx, sendo este o seu historiador imediato, no mesmo dia da sua derrota, demonstrando saber, corretamente, o significado universal da Comuna, as lições que ela legava ao proletariado em geral, desenvolvendo uma visão profunda do seu conteúdo, observando-a como uma história real e enquanto um guia de ação.

O texto elaborado por Marx, sendo uma das suas mensagens dirigidas ao Conselho Geral da Associação Internacional do Trabalho – AIT, sobre o desenvolvimento das ações revolucionárias dos communards franceses, ilustra a concepção materialista da história e encontra em Lênin, no prefácio da edição russa das Cartas a Kugelmann, em 1907, uma avaliação precisa, ao afirmar:

 [...] Não escondendo do proletariado nenhum fato da Comuna, Marx consagrou a este feito uma obra que ainda é, até hoje, o melhor guia na luta pelo “céu”.

 É certo que o cenário, nacional e europeu, não era favorável à ação inaudita do operariado francês, que desafiou o poder do capital, enfrentou exércitos poderosos, resistiu e só foi derrotado nas armas, com um banho de sangue nunca antes visto nestas circunstâncias trágicas de resistência e ofensivas operárias.

 Por estas e outras razões, de setembro a dezembro de 1870, Marx advertiu os operários de Paris, em várias oportunidades, quanto aos riscos que significava a determinação em derrubar o governo, considerado por ele um disparate, motivado mais pelo desespero do que por evidências concretas de nexos racionais quanto às possibilidades efetivas de sucesso dessa empreitada.

Porém, o proletariado parisiense fez da insurreição um fato sem retorno e, com a Comuna, deixou à posteridade, nesse embate, o sacrifício de milhares de homens e mulheres, abatidos em execuções sumárias, mesmo depois da rendição. Cenas de perversidade rancorosa da burguesia francesa, em um doloroso “auto-holocasto heroico”.

No calor dos combates, Marx enalteceu a revolução operária com entusiasmo, ainda que estivesse consciente das impossibilidades reais existentes em relação a sua efetivação plena.  Saudou a Comuna como a primeira grande epopeia, densa e fundamental, da história das lutas operárias. Foi o seu fiel e dedicado admirador, assumindo trabalhos de alta envergadura na sua defesa e entendimento, esclarecendo o seu nexo causal e as suas determinações históricas. Assentou, para sempre, o instigante julgamento de que a herança principal deixada pela Comuna de Paris foi a sua própria existência.

As circunstâncias e condições reais da revolução encaminharam os fatos para um desfecho trágico. A burguesia francesa, como já havia feito em 1848, mostrou a sua verdadeira face quando se trata de assegurar os seus privilégios e a sua dominação de classe, frente a qualquer insubordinação dos explorados. Desta vez, em proporções muito maiores. Caiu por terra toda e qualquer veleidade quando à dinâmica progressista e humanitária em uma sociedade capitalista. Ficou estampado, nos fuzilamentos em massa, nas imensas valas de corpos abatidos sem qualquer possibilidade de defesa, o caráter violento, mesquinho e vingativo da burguesia em relação as classes que buscam a sua libertação, fazendo da Paris sitiada um enorme rio de sangue.  Cessava, assim, todo canto de louvor às conquistas burguesas para o conjunto da sociedade, confinando a economia política liberal, desde então, à apologética incestuosa e estéril das hosanas verborrágicas, quanto às falsas maravilhas universais da ordem social burguesa.

A crueldade dos esbirros de Thiers e a fúria assassina dos grandes proprietários e rentistas da alta burguesia francesa, regaram o chão parisiense de corpos e sangue, com a cumplicidade  da pequena burguesia, de muitos intelectuais e escritores. Não se escondeu, porém,  a nova realidade descortinada com a rebeldia insurgente da classe operária da França, unida e disposta a romper os grilhões da escravidão burguesa, em páginas exemplares de destemor e de esperança.

Pelo seu legado, por sua perspectiva emancipadora, o programa revolucionário da Comuna de Paris permanece vivo e atual, serve de emulação para as lutas das classes trabalhadoras em todo o mundo. O projeto communard, as suas aspirações, suas reivindicações e os seus feitos, enquanto governo revolucionário, são patrimônios das classes trabalhadores de todo o mundo, orientando os povos oprimidos quanto ao que fazer frente à exploração burguesa capitalista.

O legado da Comuna constitui, em nossos tempos, para além de um exemplo de coragem e ousadia, manancial inesgotável que ilumina a consciência de todos e todas que, no horizonte das suas aspirações políticas, lutam e atuam por um novo mundo, diferente, distinto e antagônico à ordem social burguesa do capital.

 Sumário do contexto histórico

 Desde a revolução burguesa de 1789, a França viveu um longo período, de cerca de 80 anos, de instabilidades e mudanças nos seus regimes políticos.  Com as constituições de 1791, 1814 e 1830 vigeram três monarquias constitucionais; também foram instaladas três repúblicas: a primeira república de 1792 a 1804; a segunda, de 1814 a 1830; e a terceira república, de 1870, que durou até 1940. Além destas houve a instauração de dois impérios, o primeiro de 1804 a 1814, e o segundo de 1852 a 1870. Nessa conturbada conjuntura, o operariado foi se afirmando como classe que se contrapunha à burguesia e à exploração capitalista, em um dos países centrais da Europa do Século XIX. O proletariado mostrava a sua tenacidade e a sua capacidade de luta, mesmo quando se aliava à burguesia liberal, no enfrentamento aos restauradores monarquistas, como ocorreu em 1830 e em 1848.

Em aliança com a burguesia liberal contra as forças monarquistas conservadoras e regressivas, o movimento operário recebia promessas de recompensas que poderiam se materializar em ganhos econômicos e melhores condições existenciais, em caso de vitória. Passado o calor da luta e uma vez instalada no poder, a burguesia esquecia tudo o que prometera e redobrava a exploração, atacando as organizações operárias, reduzindo salários, ampliando a miséria e carreando esforços para a acumulação de capital pelos grandes proprietários e os rentistas. Sobre esta particularidade, Engels advertiu: “Por isso, depois de cada revolução conquistada pela luta dos operários, nova luta, que termina com a derrota dos operários”.

Assim ocorreu em 1848, quando grande parte dos países industrializados da Europa eram abalados por revoltas operárias, resultantes da consolidação do poder político da burguesia e do surgimento de um numeroso proletariado industrial, que já se afirmava enquanto força política, principalmente na França e, mais precisamente em Paris, que se projetava como centro irradiador de influências para as lutas revolucionárias no continente.

A essa altura, na França, a burguesia liberal sofria a ameaça de restauração da velha monarquia feudal, com a recomposição dos privilégios dos estamentos dominantes na feudalidade. A oposição ao regime monárquico, para se reunir, organizava banquetes coletivos, confraternizações públicas que uniam capitalistas liberais, artistas, escritores e proletários contrários ao governo e ao regime político de Luís Felipe. Um banquete, convocado pela oposição para 22 de fevereiro de 1848, foi proibido, gerando violenta reação popular e a eclosão de enfrentamentos nas ruas, onde se construíram barricadas, nas quais os revoltosos enfrentaram as forças monarquistas em uma batalha que durou três dias. Com a resistência popular, ocorreu a destituição de Luís Felipe e a instalação de novo regime político com o governo provisório republicano.

Acostada no poder, a burguesia liberal se via obrigada a conciliar interesses dispares dos operários e dos capitalistas. O proletariado exigia do governo, entre outras medidas, direitos políticos, empregos, direito de greve e limitação da jornada de trabalho. A opção óbvia da burguesia desconheceu as reivindicações, relegou o proletariado à miséria de sempre, proibiu as suas manifestações, perseguiu os seus líderes e impediu as atividades das suas organizações. A resposta operária foram as Jornadas de Junho, conflitos sangrentos ao fim dos quais prevaleceu a selvageria do general Cavaignac, o carniceiro, com massacre sangrento dos revoltosos, com cerca de três mil pessoas fuziladas e outras mais de 15 mil deportadas para as colônias francesas.

Em 10 de dezembro do mesmo ano, Charles-Louis Napoléon Bonaparte, sobrinho do autêntico Napoleão Bonaparte, foi eleito presidente, assumindo o governo até 1851, quando, impedido de se candidatar à reeleição, impôs um golpe de Estado e, pouco mais tarde, se proclamou imperador, com o nome de Napoleão III, aclamado em um plebiscito, com substancial apoio do campesinato. Marx escreveu livro fundamental sobre estes fatos, O 18 brumário de Luís Bonaparte, um registro histórico que é, ao mesmo tempo, uma revolução metodológica nas ciências sociais, delineando o rigor científico concernente a análise dos fatos conforme o materialismo histórico. Há, nessa obra, explicação minuciosa do sistema capitalista, com determinações centrais sobre a sua forma de ser e ir sendo, na sua dinâmica estruturante.

Derrotado na guerra que empreendeu contra a Prússia e caindo prisioneiro, Napoleão III caiu, também, do poder, com a proclamação da Terceira República, em 1870, presidida por Adolphe Thiers, que assumiu o novo Governo Provisório de Defesa Nacional. Aliás, Marx não nutria qualquer simpatia pelo político que já servira ao governo reacionário de Luís Felipe, muito antes pelo contrário. Sobre ele, escreveu Marx:

Thiers, esse gnomo monstruoso, seduziu a burguesia francesa durante cerca de meio século porque é a expressão intelectual mais acabada da sua própria corrupção de classe. Antes de se tornar homem de Estado, ele já tinha dado provas, como historiador, da sua capacidade de mentir. A crônica da sua vida pública é o registro das desgraças da França”.  (MARX, 1973, p. 26)

Instalado em Versalhes, o governo conservador de Thiers negociava a capitulação de Paris para as tropas prussianas, contrariando as disposições do povo francês que se opunha a essa medida. A resistência ao inimigo, que estava na iminência de entrar na cidade, fora entregue ao proletariado, como descreve Marx:

Paris, entretanto, não tinha defesa sem armar a sua classe operária, sem a organizar numa força efetiva e sem treinar as fileiras na própria guerra. Mas, Paris armada era a revolução armada. Uma vitória de Paris sobre o agressor prussiano teria sido uma vitória do operariado francês sobre o capitalista francês e os seus parasitas de Estado”.  (MARX, 1973, p. 23)

Diante do crescente descontentamento do proletariado armado e compondo a Guarda Nacional, Thiers ordenou o aprisionamento das armas em mãos dos operários parisienses. Na madrugada de 18 de março de 1871, as suas tropas tentaram cumprir a ordem, no que foram impedidas pela decisão do proletariado em não acatar o decreto. O operariado estava decidido, não entregaria a sua artilharia ao governo de Versalhes, ao contrário, passaria a usá-la no levante revolucionário contra o governo capitulacionista

A audácia operária resultou na deposição do governo central, considerado traidor da Nação. Nesse dia, e com essa coragem revolucionária das massas parisienses, efetivou-se a Comuna de Paris, tal como a metáfora de Marx, “como um raio em céu azul” apenas para aqueles que não percebiam ou não queriam acreditar na coragem e na tenacidade de luta do proletariado francês, ainda que desorganizado, tendo os canhões prussianos voltados para as suas fileiras, com os seus principais líderes encarcerados, exilados ou mortos e se ressentindo de melhor compreensão teórica da realidade. A revolução instaurou o poder político do operariado, através da Comuna de Paris, entificação histórica da primeira república do trabalho, de natureza universal.

Os revoltosos, indignados com a dominação e opressão política e econômica da burguesia francesa, vivendo em condições de miséria, lançaram ao mundo seu desafio: denunciavam as péssimas condições de vida e de trabalho, rejeitavam a rendição da França para os prussianos; recusavam a ser responsáveis pelas dívidas de guerra, pagas com redução dos salários e aumento dos impostos; e exigiam mudanças políticas e sociais. A rebeldia e a insubmissão do proletariado parisiense consistiam, do ponto de visto concreto e objetivo, em uma desesperada tentativa de alcançar o céu, cercado pelo inferno.

 A república social e universal do trabalho e o estado do povo pelo povo

 Se ousaram lutar, os heróis e heroínas comunards ousaram vencer. Tomaram o poder político pela força do proletariado armado. A crítica teórica cedeu lugar à crítica das armas.  Uma vez no comando do governo, o comitê central da Comuna de Paris buscou a implantação de uma nova forma de estado - o estado comunal, e de outro regime político - a democracia popular, tomando providências imediatas para melhorar as condições de vida e de trabalho da classe operária e de todo o povo pobre. Intentou elevar as condições materiais de existência das camadas mais necessitadas da população e iniciou o desmonte e a desconstrução do estado burguês na França, em que pesem as limitações materiais, práticas e teóricas do governo communard.

Foram da Comuna de Paris as realizações administrativas de políticas públicas revolucionárias que se transformaram em indicativos e referências adotadas em outras Nações, e que, ainda hoje, são de absoluta atualidade. Algumas dessas medidas podem ser sumariadas nas seguintes realizações, por exemplo:  política de controle do preço dos gêneros alimentícios, ampliação dos prazos para pagamento dos aluguéis, fixação de remuneração mínima dos salários dos trabalhadores – a criação do salário mínimo, medidas voltadas para a melhoria das condições das habitações populares, adoção de medidas de proteção contra o desemprego, separação entre estado e igreja pela concepção do estado laico, eleição de juízes com mandatos revogáveis,  implantação da autogestão operária na administração das fábricas,  autogestão na esfera pública em que os próprios funcionários públicos desempenhavam a administração do governo municipal de Paris, autogestão dos teatros pelos próprios artistas, garantia universal do ensino público e gratuito, igualdade de tratamento entre homens e mulheres em todos os níveis, garantia universal ao direito de acesso ao atendimento à saúde e determinação da liberdade imprensa, de opinião e de manifestação, dentre outras. 

É digno de nota o caráter internacional da Comuna, na qual ser estrangeiro era irrelevante, pois entre os seus integrantes estavam belgas, italianos, húngaros, poloneses etc. Da mesma forma, ressalta a sua universalidade, expressa na bandeira vermelha, adotada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade.

Formada por conselheiros municipais eleitos pelo voto direto nos vários bairros da cidade, com mandatos revogáveis, a Comuna compunha-se, em sua maioria, de operários e de representantes reconhecidos pela classe operária. Funcionava como um corpo de trabalho operante, sendo executivo e legislativo ao mesmo tempo, fazendo desaparecer as funções públicas consideradas como propriedade privada dos testas-de-ferro do governo central. Assim que assumiu a direção da revolução, estava dada a efetivação de um outro tipo de governo, do povo pelo povo.

Vale ressaltar a observação de Engels na sua Introdução de 1891 à obra de Marx, Guerra Civil na França – 1871:

 “A Comuna teve mesmo que reconhecer, desde logo, que a classe operária, uma vez chegada à dominação, não podia continuar a administrar a velha máquina do Estado; que esta classe operária, para não perder de  novo a sua própria dominação, acabada de conquistar, tinha, por uma lado, de eliminar a velha  maquinaria da opressão até aí utilizada contra si própria, mas, por outro lado, de precaver-se contra os seus próprios deputados e funcionários, ao declarar estes, sem qualquer exceção, revogáveis a qualquer momento”. (ENGELS, 1973, p. 300)

 O mundo acompanhava, pela primeira vez na história, a emergência de um regime político onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade deixavam de ser apenas veleidades retóricas ou a transferência de privilégios para uma outra classe social; o pressuposto transformador da Comuna contemplava o povo, visava a adequação da riqueza nacional ao usufruto de toda população e não apenas para saciar a cobiça e a ganância de poucos proprietários. A Comuna abria outros horizontes de universalidade, pois, o seu princípio e a sua bandeira afirmavam a síntese dos ideais communards: “estamos aqui pela humanidade”.

São esclarecedoras as observações de Lênin quanto a necessidade de se colocar, na luta pelo socialismo, a análise objetiva e crítica da experiência revolucionária da Comuna de Paris, entendo-a como um passo à frente, um salto mais adiante para a revolução proletária mundial. Esse movimento revolucionário de massas, mesmo não conseguindo os seus objetivos, tem a densidade de uma prática concreta, muito mais importante do que centenas de programas e de teorias.

É significativamente de importância gigantesca, segundo Lenin, observar que Marx e Engels introduziram correções no Manifesto de 48, relativas à questão do Estado, após a revolução parisiense. A Comuna, do seu formato político de novo tipo, reafirmou o que já fora antecipado por Marx em O18 Brumário, quanto à compreensão de que a classe operária, no poder, não pode simplesmente administrar e aperfeiçoar o Estado burguês, colocando-o ao seu serviço. É imprescindível ir mais além, é vital concentrar-se na sua demolição.  A advertência de Lênin, neste ponto é atual: 

 “É sobremaneira característico que, precisamente, esta correção essencial haja sido tergiversada pelos oportunistas e que seu sentido seja, provavelmente, desconhecido para as nove décimas partes, senão para noventa por cento dos leitores do Manifesto Comunista”. (LENIN, 1980, p. 299)

 O esclarecimento da obrigação primeira e irrenunciável da revolução proletária, uma vez tomado o poder político, afirma, como tarefa imediata, a destruição e o rompimento da máquina estatal existente, ao contrário se contentar em apoderar-se dela e tentar modificá-la em processo de transformação lenta e gradual. Esta é uma das lições centrais da Comuna, deixando demarcado que a condição prévia de toda revolução popular, da tomada do poder pela classe operária, consiste na demolição da estrutura burocrático-militar do Estado burguês. Dessa forma, a providência inicial adotada no primeiro decreto da Comuna foi a extinção do exército permanente e a sua substituição pelo povo armado.

         É de importância lapidar manter destacado o que ensina Marx no seu Guerra Civil em França-1871, de maneira enfática:

 “Com o desenvolvimento do antagonismo de classe entre capital e trabalho, o poder do Estado foi adquirindo, cada vez mais, o caráter de poder público para a opressão do trabalho, o caráter de uma máquina de dominação de classe. Depois de cada revolução, que marca um passo adiante na luta de classes, se põe, com traços cada vez mais destacados, o caráter puramente opressor do poder do Estado. Depois de 1848-1849, o poder do Estado se converte em uma arma nacional de guerra do capital contra o trabalho. O Segundo Império o consolida.

 A antítese direta do Império era a Comuna. Era a forma definida daquela república que não havia de abolir tão somente a forma monárquica de dominação de classe, senão a dominação de classe mesma”.  (MARX, 1973, p. 47)

Estas reivindicações, assinala Lênin, têm que estar contidas em todos os partidos que se dizem socialistas. O programa da Comuna deixa, também, como lição, as consequências de não se levar até o fim tais determinações inerentes à revolução proletária. Nas palavras de Lenin:

 “Todavia é necessário reprimir a burguesia e vencer sua resistência. Isto era especialmente necessário para a Comuna, e uma das causas da sua derrota radica em não tê-lo feito com suficiente decisão. [...] E desde o momento em que é a maioria do povo a que reprime por si mesmo a seus opressores, não é já necessária uma força especial de repressão! Neste sentido, o Estado começa a se extinguir”.  (LENIN, 1980, p. 303)

 Tais determinações esclarecedoras de Lênin e Marx ilustram, ainda, a distinção necessária entre “explodir” o Estado burguês, defendido pelas correntes anarquistas, e “demolir” o estado das forças do capital, na concepção delineada pelo pensamento marxeano. A abolição do Estado se põe, efetivamente, como o objetivo, a meta da revolução, mas a sua “explosão”, pura e simples, não efetiva as mudanças que devem ser implementadas no processo de construção da nova ordem social que se erige.  Para derrotar, de maneira definitiva, o jugo capitalista, os operários precisam de um Estado transitório, o Estado revolucionário ou, se se queira, a ditatura do proletariado.

É uma necessidade temporal para alcançar a meta de extinção do estado, com o uso, também temporal, de instrumentos, meios e métodos de poder estatal transitório contra os exploradores; a ditadura temporal das classes oprimidas para limpar o terreno antes ocupado pelas classes opressoras. É a prática concreta da onto-negatividade da política, usada para destruir a própria política, assentada na forma do Estado burguês.

 Dessa forma, a Comuna de Paris deixou indicativos consistentes quanto, não só, a conquista do Estado burguês pelo proletariado, como, até mesmo, pelas suas inconsistências e efemeridade, legou escrito o roteiro incontornável das tarefas iniciais e prementes da revolução socialista, após a posse do velho Estado. A demolição da máquina de opressão da burguesia requer, para além da derrota política das forças do capital e a instauração do poder político do operariado, a adoção de instrumentos sem quais o avanço da revolução pode ser bloqueado.

E, nesta acepção, o desmonte do Estado burguês e a emergência do “Estado do povo pelo povo”, tarefa central e decisiva, se dá pela edificação de um novo tipo de estado de natureza temporal, com a função de preparar o terreno adequado e compatível com a nova sociedade que se levanta do chão, sobre o alicerce da revolução proletária vitoriosa. E este meio de semear o presente, a demolição do maquinário burocrático-militar capitalista, e colher o futuro, a sociedade humana emancipada, passa pela consolidação do estado revolucionário temporal, a ditadura do proletariado.  

 A Comuna está viva e pujante nas lutas atuais pela emancipação

 Os grandes proprietários, os capitalistas rentistas, os políticos burgueses reagiram à ousadia operária, apoiados pelo exército prussiano, que liberou canhões e munições aprisionados das tropas francesas para combater a Comuna. O governo, desapeado do poder e escorraçado, organizou forte aparato militar e policial, realizando pesados e contínuos bombardeios sobre Paris, com o beneplácito das orações, elegias e aplausos da igreja católica, de literatos e intelectuais da burguesia liberal, derrotando as barricadas operárias e vencendo os communards, deixando-os sem saída em uma cidade sitiada pelo exército prussiano.

No dia 28 de maio de 1871, consumou-se a derrota militar da Comuna de Paris. Fora vencida pela força das armas do exército francês e do sítio imposto pelas tropas prussianas, que impediam qualquer possibilidade de fuga.  Ato seguinte à rendição, o governo passou a executar, sumariamente, todos os prisioneiros e prisioneiras que integravam as fileiras insurgentes da Comuna de Paris. Relatos da época dão conta de assassinatos de mais de 20 mil pessoas nas ruas da capital francesa, transformadas em riachos de sangue. 

Abatida estava a Comuna, mas os ensinamentos da sua efetivação trágica, instalando, na prática revolucionária, a primeira república operária, a república social e universal do trabalho, jamais foram derrotados. Estão presentes como farol e guia para manter em marcha o projeto de classe do proletariado mundial, objetivando uma outra ontologia do trabalho, em uma sociedade humana emancipada dos grilhões da dominação capitalista. Essa marcha dos povos oprimidos em direção a uma nova ordem social leva, no seu conteúdo, a bandeira vermelha da Comuna e a sua mensagem indelével de que, a luta atual pelo socialismo, também, se faz pela humanidade.

Vale destacar trecho da mensagem de Marx, dirigida ao Conselho Geral da Associação Internacional do Trabalho, em 30 de maio de 1871:

 “A Paris operária com a sua Comuna será sempre celebrada como o arauto glorioso de uma nova sociedade. Os seus mártires estão guardados como relíquia no grande coração da classe operária. E aos seus exterminadores, já a história os amarrou àquele pelourinho eterno donde as orações dos seus padres os não conseguirão redimir”.  (MARX, 1973, p. 67)

 O sonho de liberdade, de igualdade na diversidade e da capacidade do proletariado e do povo oprimido tomarem o seu destino em suas mãos, está de pé e vitorioso. O maior monumento que se pode erguer para a Comuna de Paris é mantê-la viva nas suas memórias, onde residem a esperança e a certeza de que um mundo melhor é possível e, cada vez mais, necessário. Manter viva a Comuna significa reconhecer o seu referencial prático como fonte de reflexão e de inspiração, intencionadas à edificação de “uma nova ordem humano-societária do trabalho”, no processo inexorável de efetivação da emancipação humana.

 

 .        *Sebastião Soares

          Filósofo, Professor e Jornalista

            Diretor-Geral do Observatório Sindical Brasileiro “Clodesmidt Riani”

 

 Referências Bibliográficas:

ANDRIEU, Jules. Note pour servir a l´histoire de la Commune de Paris en 1871. Paris:Payot, 1971.

DALOTEL, Alain, FAURE, Alain, FREIERMUTH, Jean-Cloude. Aux Origines de la Commune. Le mouvement des reúnions publiques à Paris 1869-12870. Paris:François Maspero, 1980.

ENGELS, Friedrich. Introduction à l´edition allemande de 1891 de La guerre civile en France-1871, Paris:Payot. 1953.

LÊNIN, Vladímir Ilitch. El Estado e la Revolución. Moscou:Editora Progresso. 1980.

LISSAGARAY, Prosper-Olivier. História da Comuna de 1871. São Paulo  Editora Ensaio, 1991.

MARX, Karl. La guerre civile em France–1871. Paris:Éditions Sociales. 1953.

- O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro:Paz e Terra. 1978.

NOËL, Barnard. Dictionnaire de la Comunne. Paris : Flamarion. 1978

 

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