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Movimentos Sociais

ESCOLA SEM PARTIDO: UM NOME PARA MULA SEM CABEÇA




O fervor retrógrado dos reacionários não tem limites, querem acabar com o direito à liberdade de expressão

Escola sem partido, o outro nome para mula sem cabeça

"Mas em meu íntimo e com desvelo, 
eu tenho pensado nesse sutil enredo,
que, por vezes, parece-me um jogo,
disputado com impaciência e medo."
(Gilberto Nable)

Falando com franqueza e sendo sincero, eu ainda não tinha visto mula sem cabeça, agora, confesso: estou apavorado, o Brasil se transformou em um País povoado de mulas-sem-cabeça que se tornaram visíveis com vários nomes, entre eles a escola sem partido. Escrito no singular, mesmo, pelo desprezo a tal movimento.

O fervor retrógrado dos bolsonários e dos ultristas, assentado na imbecilidade dominante das categorias cooptadas para o projeto de poder da extrema direita, especializou-se em criar falsos dilemas diversionistas que elidem a realidade concreta e os problemas reais do País. Assim, a escola sem partido significa o contrário do que se lê, é a mais torpe, absoluta e estúpida partidarização do ensino, por um viés teológico pentecostal e que serve, entre outras coisas, para desviar a atenção do povo de problemas reais como distribuição de renda, reforma agrária, soberania, reforma tributária progressiva, geração de emprego, educação e saúde como direitos de todos e obrigações do Estado, questões centrais do futuro da Nação.
A escola sem partido tem odor medieval, com incenso evangélico da velha Inquisição. Faz lembrar as contendas escolásticas, longas, inúteis e tediosas; sempre encerradas com o argumento de autoridade e cuja primeira vítima é a verdade. Lamentável é o fato de se despender muita energia social para combater tais malabarismos conceituais, criados para obnubilar a floresta que há depois da árvore, tendo a devoção fervorosa de uma legião de mulas-sem-cabeça. 
Elas assumem a verdade absoluta dos profetas iluminados, de charlatões dos templos e de governos e se transformam em animais ferozes; relincham nas escolas ondem deixam as marcas das suas ferraduras, ameaçam professores, fazem denúncias mentirosas e recorrem à justiça em nome da causa, ou seja, impor a ideologia dos partidos da extrema direita em nome da escola sem partido. 
Às vezes até soluçam como seres humanos em divertidos contorcionismos verbais, desfraldando suas “virtudes”: a calúnia, a injúria e o egoísmo individual, com acusações falsas e ignominiosas, esquecendo-se, o parvo, da verdadeira e mais importante virtude, ser feliz e fazer feliz a maior quantidade de pessoas. Significa: praticar o amor ao próximo. 
O pobre asno sem cabeça apenas repete o que ouviu do seu “mestre”, em geral um rufião desprovido de caráter, prestidigitador social cuja única arte é o ilusionismo político ou religioso, com a finalidade de alcançar vantagens pessoais. 
Na verdade, as mulas-sem-cabeça vivem um grave dilema, não têm livre arbítrio e nem pensamento próprio. Tal como o asno de Buridan, se tiver que decidir por sua conta entre um pacote de palha e um recipiente de água, colocados à mesma distância delas, morrem de fome e de sede, pois não sabem tomar decisões racionais. Vivem da fantasia do seu rei mandou dizer. O seu rei mandou dizer que as escolas brasileiras estão tomadas pela pedagogia de Paulo Freire, os professores e professoras distribuem “kits gay” e disseminam ideologias de gênero. E lá vai a mulinha pocotó sem cabeça repetindo o refrão: “escola sem partido, sim; vermelho, não”. Espalha na rede social, conspira com outras iguais, unge-se com a verborreia do pastor ou do político, esparrama coices à esquerda e à direita, melhor dizendo, só à esquerda, e se apraz no gozo psicótico que exorciza os seus demônios comunistas.
E nem são originais, reproduzem os jogos de poder que usam a linguagem como instrumento de dominação, tal como ocorre na Alemanha com os “Neutrale Schulen” (Escolas Neutras) do partido de extrema-direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), com base de apoio neonazista. Lá, eles criaram sites para alunos denunciarem professores críticos e que expressem suas opiniões em sala de aula. Algo similar à escola sem partido que existiu nos Estados, com a Lei Feinberg de 1949, que previa a demissão de professores pelas suas palavras em sala de aula. A onda reacionária macartista foi derrotada em 1967, com a garantia da liberdade de cátedra, agora ameaçada pelas mulas-sem-cabeça do “Tea Party” que apoiam Donald Trump.
A política da escola sem partido é um jogo, sujo e pérfido, que ilude incautos com a justificativa de querer acabar com a instrumentalização do ensino para fins políticos, ideológicos e partidários, usando, para isto, os próprios alunos que são estimulados a fazerem denúncias anônimas contra seus professores.
O que se pretende, de fato, é cercear a liberdade de crítica e de reflexão no ensino brasileiro, pela imposição de um pensamento único, estúpido e arrogante, violento e agressivo. Busca-se a dominação da liberdade de pensar e de expressar em nome de um pensamento fascista de extrema direita que, para impor a sua ideologia, precisa interditar e destruir todas as demais concepções que a rejeitam. 
Por isto, a escola sem partido é a total partidarização, pois, serve, tão somente, a um projeto de poder político, econômico, social e cultural que nos ameaça com o retorno das trevas. E as mulas-sem-cabeça que disseminam esse projeto agem como falanges e milícias que coagem e agridem. Como escreveu Gilles Deleuze, “o tirano necessita da tristeza das almas para triunfar, como as almas tristes necessitam de um tirano para se apoiarem e se propagarem”. 
Quanto a nós, que estamos na outra margem da contracorrente, só podemos dizer, tal qual Prometeu: é preferível viver acorrentado a ser lacaio e sabujo dos tiranos. Se a história nos diz, não se aprisionam as ideias assim como não se encarcera o vento, ainda que se instale a tirania do reino das trevas, a luz de um novo amanhecer haverá de abrir clareiras para o sol da democracia e da liberdade. Assim será, a nossa luta vencerá.
(S. Soares - Filósofo e professor).
*
(Para Gil e Maria Célia, na certeza de que nenhuma tirania resistiu ao tempo)


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