Carregando...

ASSUNTOS GERAIS

BRASIL VOLTA AO PASSADO REGRESSIVO E REACIONÁRIO



Capa da revista integralista

Um Brasil despedaçado a caminho do décimo círculo do inferno de Dante, pela regressão reacionária  

Janeiro de 2018, o Brasil começa a sua jornada política que, nas telas dos cinemas, poderia ser denominada como retorno ao passado.  O País moderno e ostentando o brado retumbante de ser a oitava economia do mundo, posição que demonstra, tão somente, quão pobre são os demais países, nunca pôde dormir em berço esplêndido. Sob o sono profundo das velhas e novas oligarquias dominantes está o pesadelo contínuo da miséria social, a marca trágica da história de uma Nação sustentada com o aprisionamento e escravização de negros por mais de três séculos; e no período pós abolição, se desenvolveu com a  escravidão do trabalho assalariado, indigno e degradante, e se aprofunda ainda mais nesses tempos de desmonte da legislação trabalhista e revogação das políticas de proteção social, em favor do ócio altamente lucrativo das classes dominantes improdutivas.

O governo eleito e a ser empossado em 1º. de janeiro, fruto de um processo espúrio, demarcado pela supressão dos elementos básicos da democracia formal liberal, através de práticas criminosas das altas cortes judiciais, do Legislativo e Executivo, em nome um consórcio nacional e estrangeiro com interesse nas riquezas naturais no país e na exploração econômica de serviços essenciais fundamentais para a população, aposta e anuncia a máxima exploração da força de trabalho, para aumentar desmedidamente a propina da superacumulação capitalista em favor dos parasitas.

 O anel asfixiante do rentismo e os seus tentáculos internos teceram a trama do golpe para depor a presidente Dilma Rousseff, deformando o regime democrático e suprimindo direitos humanos básicos, consagrados em organismos internacionais, entre os quais a Organização Internacional do Trabalho-OIT. Nesse desmonte deliberado, ceifaram da vida de milhões de brasileiros e brasileiras as escassas fatias da distribuição de renda que mitigavam a fome e o sofrimento das camadas mais necessitadas do povo brasileiro. Isto em um país onde há uma população superior a 15 milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza e no qual 10% dos mais ricos abocanham a metade da renda nacional.

A partir de janeiro, velhos conceitos e preconceitos de uso comum do integralismo dos anos 30, fartamente espargidos como verdades absolutas sobre o eleitorado, estarão no comando do governo, numa viagem irracional ao passado. Um passado onde fulgura a intolerância do integralismo de Plinio Salgado e de Gustavo Barroso, à frente da Ação Integralista Brasileira, da mesma família da ordem bolsonariana no poder, produtos, ambos, da “miséria brasileira”. Inclusive no seu discurso, pois, de acordo com José Chasin, “... o discurso ideológico do sigma é eminentemente persuasivo, retórico; não encontramos em suas páginas uma argumentação elaborada com o propósito de convencer, obediente às exigências da construção sistemática regida por nexos racionais.” Manipular e persuadir, esta foi a fórmula da cantilena eleitoral da campanha do candidato do PSL.

As teses do concorrente da extrema-direita e as suas falas se adequam ao que observa Chasin: “Neste itinerário, irrelevante e até mesmo natural é que as descobertas, as teses sejam justificadas, em instantes diversos, de modos diferentes, distintos e até contraditórios...” Mas, como não há nenhuma ideologia inocente, é a partir das “verdades” do bolsonarismo,  escarradas de maneira vulgar e aviltante por mais de um dos seus mentores intelectuais, que se pode apreender o seu projeto de poder enquanto utopia irracional regressiva. Perigosamente reacionária.

Conforme depoimento de Antônio Cândido, sobre as características do movimento integralista, naquela época, moças e rapazes “... se tornavam integralistas por uma espécie de insatisfação contra as oligarquias [...] Tinha os que aderiam por devoção religiosa, prolongando o espírito de catecismo e Congregação Mariana, numa piedade assustada que procurava garantias de manutenção da Igreja [...] contra o que chamavam “o materialismo ateu do nosso tempo” e englobava o medo irracional do comunismo”. Diz o mesmo autor que eram pessoas de mentalidade agressivamente fascista, espancadores em expedições punitivas, intolerantes com relação a quem ousasse pensar diferente. Muitas vezes, aponta Antônio Cândido, não era “... adesão consciente, mas fruto de inquietação honesta, embora quase sempre reacionária, nascida contra o império do coronelismo e o integralismo lhes parecia, com efeito, uma solução nacional”.  Tal como hoje, com as devidas mediações, ocorre com o fenômeno do bolsonarismo. Porém, é importante atentar para esta observação: segundo Cândido, muitos deles largaram o movimento assim que o seu aspecto nazista, autoritário e truculento, se evidenciou ou se tornou insuportável.

O nosso janeiro despedaçado, em referência ao filme “Abril despedaçado” de Walter Salles , baseado no livro homônimo do escritor albanês Ismael Kadaré, nos remete, de forma similar ao enredo do filme, à ausência do Estado frente à violência que se dissemina e se incentiva como prática normal e corriqueira. A justiça passa a ser uma questão individual de vingança.  Linchamentos de inocentes, execuções sumárias como o assassinato ainda não esclarecido de Marielle Franco, extermínio generalizado de jovens pardos, pretos e pobres das periferias urbanas, ostensiva propagação e uso da violência como instrumento de campanha política pregada pelo candidato fanfarrão eleito e pelos seus seguidores, além das estúpidas manifestações de políticos assanhados com a total liberdade a ser concedida às forças policiais para matar quem quer que seja. Claro, os alvos serão, sempre, a população pobre sitiada nos seus locais de moradia.

O poder paralelo das milícias, em quase todas as cidades do Brasil, impõe a sua ordem e a sua lei, ao arrepio do poder público, ao mesmo tempo em que, no campo, imperam as sentenças dos grileiros e latifundiários fazendo “justiça” por conta própria, no assassinato covarde, cruel e selvagem de indígenas e trabalhadores rurais indefesos, entre estes mulheres e crianças. Situação que só tende a agravar no novo governo, onde a justiça poderá ser vingança e violência contra a esquerda.

É o Brasil despedaçado pela profanação das leis da dike, aviltada e rebaixada, mediante a ausência do Estado, propiciando a arbitrariedade, as vendettas e a epidemia de assassinatos no País, em maior quantidade do que os mortos da guerra da Síria. Aqui, a impunidade dos ricos é a marca absoluta do aparato jurídico-policial nacional. Quando não é o próprio Estado o autor e responsável pelo banho de sangue que escorre nos campos e nas cidades, indiferente às dores e sofrimentos provocados.

O janeiro despedaçado é o roteiro prévio de uma tragédia anunciada, em que o futuro do País estará hipotecado pelas cobiças individuais e de grupos, falsamente escamoteadas por farta manipulação midiática, anunciadas como salvação nacional. Um despedaçamento visível no mosaico surreal das figuras máximas do futuro governo, uma mistura de porco espinho com cobra de vidro, que só poderá gerar e parir aberrações. Caminhamos, por contra própria e com empurrão ganancioso do establishment norte americano, para o abismo do décimo círculo do inferno de Dante, na determinação de uma pavorosa tragédia nacional, no sentido clássico do termo, ou seja, aquela que nunca termina bem e que produz horror, espanto, repugnância e indignação.

Comum nas tragédias é a certeza da harmatia, a falha do herói sem caráter, que ganha o poder mediante artifícios e dele se torna indigno. E o herói bufão da comédia política brasileira é o vilão da tragédia a ser encenada no palco da Praça dos Três Poderes, cujo erro trágico é a arrogância e o desprezo para a grande maioria da população, excluída e marginalizada, aliado à composição de um governo que mais parece um puzlle onde as peças não se encaixam. É um Macbeth subdesenvolvido assolado por fantasmas, sempre à espreita de que alguém quer a sua morte.

  O nosso janeiro despedaçado marca o início do primeiro ato da tragédia brasiliana; aponta na direção do décimo círculo do inferno, embora na obra magistral de Dante Alighieri sejam apenas nove, os círculos. A realidade brasileira contemporânea é ainda mais horrorosa do que o panorama do inferno descrito na Divina Comédia e que serviu a Dante para ali lançar os seus inimigos, dado que a nossa é real e concreta. Por isso, não há tempo a perder, o outro lado é muito rico e poderoso e, como afirma Georg Lukács, não temos “o direito a contemplar orgulhosamente de cima para baixo as pequenas lutas do mundo e depreciá-las”; o que nos espera e exige é a capacidade de interpretar e entender o que aí está posto como tragédia e lutar, com a mais ampla unidade,  pela sua transformação e superação.

(S. Soares, filósofo e educador).

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Histórico

Fones:(61) 3226.0732
Cel: (61) 99277.3844 - (82) 99904.2191
SCS - Quadra 02 - Bloco C - No. 41 - Conjunto 304 CEP 700315-000 - Brasília-DF
agenciasocial@agenciasocial.org.br
© 2016 Agência Social Todos os direitos reservados